Jovem passa de primeira em medicina na Unicamp com apoio da mãe

Médica, sim! Aprovada de primeira na Unicamp, jovem celebra apoio da mãe para vencer pressão religiosa

Prestes a colar grau aos 23 anos, Kelly Cristina Almeida Souza carrega uma trajetória de superação iniciada ainda na adolescência. Vinda integralmente da rede pública de ensino, ela conquistou uma vaga em medicina na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) logo ao sair do terceiro ano escolar, em 2021. Para alcançar a meta sem recursos para pagar um cursinho preparatório, a jovem desafiou cobranças familiares e encontrou na própria mãe o maior pilar de incentivo.

Ruptura com expectativas familiares e incentivo materno

A decisão de seguir a carreira médica enfrentou resistências no próprio círculo familiar. Parte dos parentes, de perfil profundamente religioso, defendia que o destino da jovem deveria ser o casamento precoce, em vez do ingresso no ensino superior.

“Minha família realmente é muito religiosa e tinha essa expectativa sobre as mulheres da família, de se casarem, de não estudar. Não era uma coisa que se esperava de uma mulher. Mas minha mãe, especificamente, sempre me ajudou muito”, contou.

Aos 16 anos, Kelly trabalhava no caixa de uma padaria com a intenção de juntar recursos para comprar um computador. Ao perceber a vocação e a vontade da jovem de prestar vestibular, a mãe interveio de forma decisiva: dirigiu-se pessoalmente ao comércio para pedir a demissão da filha, garantindo que o tempo dela fosse totalmente voltado aos cadernos.

“Ela falou: ‘Não, ela não vai trabalhar aqui não, ela vai estudar pra ser médica’”, relembrou Kelly.

A virada de chave no Enem e a realidade financeira

O interesse pela área da saúde não surgiu na infância. A perspectiva começou a se desenhar no segundo ano do ensino médio, na Escola Técnica Estadual (Etec) de Botujuru, quando Kelly prestou o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como treineira. O desempenho de 920 pontos na redação fez com que uma professora de língua portuguesa visse potencial para vestibulares de alta concorrência.

Além da afinidade acadêmica, a meta carregava o anseio de transformar a realidade socioeconômica de sua casa. A mãe, técnica de enfermagem aposentada, mantinha a família de quatro filhos com cerca de um salário mínimo.

“Eu entrei no curso pensando em mudar a situação financeira da minha família mesmo. Minha mãe é técnica de enfermagem, só que ela era aposentada e ganhava um salário mínimo. Nós somos em quatro crianças lá em casa, então era uma situação financeira muito difícil ”, contou.

Método autônomo e oito horas diárias de foco

Durante o ano letivo de 2020, em meio à pandemia, a vestibulanda precisou estruturar a própria metodologia. A rotina não permitia dedicação exclusiva, pois ela dividia as horas com serviços domésticos e com os cuidados de três irmãos mais novos. A saída foi recorrer a videoaulas no YouTube e materiais gratuitos disponibilizados por plataformas de cursinhos.

O cronograma consistia em oito horas diárias de segunda a sexta-feira, dividindo o dia entre revisões pela manhã e conteúdos inéditos à tarde. Aos sábados, Kelly resolvia provas anteriores e simulados; aos domingos, descansava. Para conter a insegurança com notas iniciais, a estudante adotou hábitos de autocuidado.

“Tinha muita ansiedade envolvida no processo, incerteza, né? Eu não comecei a minha preparação atingindo as notas de corte, muito pelo contrário, eu fazia muito abaixo. Então tinha um quê de frustração também”, relatou.

As práticas de ioga e meditação tornaram-se aliadas diárias: “Foi uma coisa fundamental para eu manter o mínimo de calma que eu consegui”, disse.

Vitória na primeira chamada e novos horizontes

Às vésperas da primeira fase, diante de uma crise de ansiedade, a jovem foi levada pela mãe para visitar o campus da Unicamp em Barão Geraldo, gesto que devolveu a autoconfiança necessária para o teste. O esforço culminou na convocação logo na primeira lista da Unicamp pelo sistema de cotas para estudantes de escolas públicas autodeclarados pardos, ocupando a 371ª colocação geral. Ela também havia avançado para a segunda etapa na USP e na Unesp.

“Eu esperei ela [mãe] chegar em casa, aí quando ela chegou eu falei assim: ‘Adivinha quem passou em medicina na Unicamp?!’. Ela ficou desacreditada, aí já começou a ligar para todo mundo que conhecia”, relembrou.

Para se manter em Campinas e arcar com os custos de moradia, Kelly obteve bolsa de mérito e auxílios de permanência estudantil. Em contagem regressiva para a formatura prevista para novembro de 2026, ela pretende ingressar na residência de oftalmologia e deixa um recado inspirador para novos candidatos:

“Mesmo que você venha de uma escola pública, mesmo que você não tenha todas as privilégios do mundo quando você está se preparando, a gente tem, hoje em dia, um monte de ação social, um monte de ação afirmativa, lembrando que é possível , ajudando você a não deixar de sonhar. Eu vejo muita gente parando de sonhar porque não vê isso e eu acho que você tem que correr sim atrás dos seus sonhos, eu sou prova viva de que é possível “, disse.

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