Ex-diretores da Voepass tentam culpar uns aos outros por queda de avião

Acidente Voepass: depoimentos revelam que ex-diretores tentaram transferir responsabilidade sobre manutenção de aviões

A Justiça brasileira tornou réus 12 denunciados pelo trágico acidente aéreo envolvendo uma aeronave da Voepass que resultou na morte de 62 pessoas em Vinhedo, no interior paulista. Nos depoimentos prestados à Polícia Federal em Campinas, ex-dirigentes da companhia aérea tentaram se esquivar da culpa pelas falhas na manutenção dos aviões, protagonizando um verdadeiro jogo de empurra.

O embate entre os ex-gestores O ex-diretor de operações Marcel Sarquis Moura alegou que a responsabilidade técnica pelas aeronaves cabia ao piloto-chefe Raphael Limongi, que também figura como réu na ação judicial. Segundo Moura, a função exercida por ele não exigia habilitação técnica específica para responder pelas condições dos aparelhos.

“Tempo antes do acidente, isso foi desmembrado, e o Limongi passou a uma diretoria — não requerida pela Anac, mas uma diretoria estrutural da empresa — onde assumiu a parte do Centro de Controle de Operações”, declarou à PF, em maio de 2026.

Por outro lado, Carlos Alberto Costa, que atuava como diretor de manutenção, rebateu as acusações e afirmou que perdeu autonomia sobre o setor após reestruturações internas na companhia. De acordo com ele, o Centro de Controle de Manutenção passou a responder diretamente a Moura.

“Particularmente, fiquei chateado, porque perdi essa área. O MCC é o Centro de Controle da Manutenção. Ele foi para debaixo do [Marcel] Moura, e o Juliano também passou para debaixo do Moura”, contou o ex-diretor, no depoimento de agosto de 2026.

A posição da Polícia Federal Apesar das tentativas de isolar a culpa na ponta operacional, a investigação conduzida pela Polícia Federal rejeitou os argumentos da diretoria. O relatório final apontou que a tragédia foi gerada por uma cultura corporativa que negligenciava a segurança em prol da operação contínua da frota.

O delegado responsável pelo caso indicou que a cúpula da empresa tinha pleno conhecimento de problemas recorrentes no sistema de degelo das aeronaves e omitiu providências eficazes.

“Ele era ciente dos problemas que haviam com o equipamento de gelo. Não tomou nenhuma ação. Onze meses depois continuavam os mesmos problemas na mesma aeronave”, comentou.

Negativa de ordens para omitir falhas Durante os interrogatórios, os investigados negaram a existência de diretrizes institucionais para ocultar defeitos mecânicos dos pilotos. Costa foi enfático ao rejeitar a hipótese de subnotificação forçada de panes.

“Nunca, jamais. Agora, se algum piloto ou mecânico eventualmente deixou de reportar algo — doutor, não vou afirmar que sim, nem que não —, se há provas e evidências nesse sentido, o que posso afirmar é que isso nunca foi, de forma alguma, uma orientação da empresa”, refutou o ex-diretor.

“Você tem que reportar, porque na aviação há uma máxima: o mecânico não coloca a mão no avião se não houver um documento respaldando aquilo, e, a partir do momento em que ele para de colocar a mão no avião, ele tem que reportar em algum lugar”, completou.

Contudo, depoimentos de funcionários subalternos revelaram a existência de pressões internas para abafar problemas técnicos até que os aparelhos retornassem à base principal em Ribeirão Preto.

Lista de réus e posicionamento da empresa A denúncia aceita pela Justiça inclui donos, diretores, gerentes, despachantes e mecânicos. Entre os nomes processados estão Marcos Hiroyuki Sato, Alex de Souza Leandro, William Schmidt Agatz, Juliano Flores Pacheco, Raphael Limongi de Figueiredo, Marcel Sarquis Moura, Tiago Passucci Morani, Carlos Alberto Costa, Eric Consoli, Rafael Gimenez Rodrigues, David da Costa Faria Neto e José Luiz Felício Filho.

Em nota oficial, a Voepass declarou que continuará colaborando integralmente com o Poder Judiciário e com os órgãos competentes, reforçando o compromisso histórico da companhia com a segurança de voo ao longo de suas três décadas de operação no mercado nacional.

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