O estado do Pará atingiu o maior patamar de exploração madeireira dos últimos cinco anos. Entre agosto de 2024 e julho de 2025, foram mapeados 60.664 hectares de floresta sob atividade extrativista, um salto superior a 40% na comparação com o ciclo anterior. As informações foram consolidadas pelo Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira (Simex), uma iniciativa conjunta do Imazon, Instituto Centro de Vida (ICV) e Imaflora.
Análise da legalidade na extração
O levantamento, que cruza imagens de satélite com registros oficiais de autorização, revelou que a maior parte da exploração, cerca de 41.538 hectares (68%), ocorreu dentro das normas. Em contrapartida, 19.126 hectares (32%) foram explorados sem o devido licenciamento. Enquanto o setor regulamentado registrou um crescimento de 83%, a extração ilegal apresentou uma queda de 6%.
Embora a retração da ilegalidade seja vista como um avanço, a área afetada ainda é alarmante, equivalente a mais de 19 mil campos de futebol. Camila Damasceno, pesquisadora do Imazon, pontua que o cenário exige cautela: “Os números mostram que há muito a avançar. Precisamos fortalecer a fiscalização, ampliar as ações de combate e responsabilização dos infratores e criar mecanismos de incentivo ao manejo florestal, principalmente o comunitário”.
Impactos no mercado e na floresta
Especialistas alertam que o volume de madeira extraída sem controle compromete a integridade do ecossistema e a competitividade do setor. Carlos Souza Jr., coordenador do programa de monitoramento da Amazônia do Imazon, reforça que a redução percentual da ilegalidade não mascara a gravidade da perda florestal.
“Considerando um cenário conservador de extração de duas a três árvores por hectare, foram derrubadas e inseridas no fluxo comercial entre 38 mil e 57 mil árvores, sem plano de manejo, vistoria ou rastreabilidade de sua procedência”, explica Carlos. Ele complementa que a entrada desses produtos no mercado desvaloriza quem atua conforme a lei: “[Isso enfraquece] os esforços de transparência e os investimentos de quem opera de forma regularizada no estado.”
Proteção das terras indígenas
As áreas protegidas continuam a servir como um escudo contra o desmatamento, concentrando apenas 2% da exploração ilegal detectada. Com 424 hectares afetados, o índice nas terras indígenas foi o segundo menor da série histórica. No entanto, a recorrência de invasões na Terra Indígena Amanayé, citada pela quinta vez nos boletins, preocupa as autoridades.
Camila Damasceno destaca que a questão vai além do dano ambiental, afetando diretamente a vida dos povos originários: “A redução da extensão afetada não significa que o problema esteja resolvido. A ocorrência de exploração ilegal em uma área protegida é extremamente sensível e exige atenção urgente”. Sobre os impactos sociais, a pesquisadora conclui: “Expõe as comunidades a conflitos, ameaças e restrições ao direito de circular livremente em sua própria terra, com possíveis impactos sobre a saúde e os modos de vida tradicionais.”