O governo de Santiago Peña enfrenta uma grave crise política no Paraguai após 35 deputados da oposição protocolarem um pedido de impeachment contra o presidente. A iniciativa é uma resposta direta à intervenção no banco digital Ueno, que bloqueou o acesso de milhares de clientes aos seus recursos financeiros, gerando instabilidade e desconfiança no sistema bancário do país.
Conflito de interesses e acusações contra o presidente
O documento apresentado na Câmara dos Deputados alega que houve manipulação regulatória, desvio de fundos do Instituto de Previdência Social e conflito de interesses. O ponto central da crítica reside no fato de que Peña, um economista que assumiu o poder em 2023, atuou como acionista do grupo controlador do banco até março do ano passado. A instituição, que detinha cerca de 3 milhões de clientes e gerenciava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos públicos, entrou em processo de liquidação pelo Banco Central após a detecção de um déficit na solvência por causa de empréstimos irregulares a empresas ligadas ao grupo.
Durante a sessão parlamentar, a deputada da oposição Rocío Vallejo criticou duramente a gestão do presidente: “Nunca antes alguém prejudicou, em um único dia, 3 milhões de pessoas na República do Paraguai, e o senhor conseguiu isso, senhor presidente… o senhor é a origem desse monstro que criou”.
Resposta do governo e desdobramentos judiciais
Para que o processo de impedimento avance, a oposição necessita de uma maioria qualificada de dois terços na Câmara, um cenário ainda incerto devido à força da bancada governista. Em resposta às pressões, Santiago Peña utilizou a rede social X para prometer que os culpados pelas irregularidades enfrentarão o rigor da lei. Ele também promulgou uma legislação desenhada para acelerar o ressarcimento dos poupadores afetados pela liquidação.
“Peço veementemente a todos os setores políticos que coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro interesse”, afirmou o presidente.
Impactos no setor financeiro
O escândalo já resultou em consequências severas para a cúpula do banco Ueno. O presidente da entidade, Carlos Carvallo, foi destituído do cargo, enquanto oito diretores, incluindo o presidente-executivo Miguel Vázquez, foram presos após a Procuradoria emitir mandados contra 27 pessoas ligadas à instituição. Além das prisões, a Justiça ordenou o congelamento de bens dos envolvidos.
A crise ganhou contornos de instabilidade sistêmica nesta quarta-feira, com relatos de falhas em diversos aplicativos de outras instituições bancárias, elevando a tensão entre os correntistas. Em nota, a Asoban (Associação de Bancos do Paraguai) garantiu que o sistema financeiro segue “operando normalmente”, apesar do fluxo intenso de clientes migrando contas após o colapso do Ueno.