Enquanto o foco das atenções nas eleições de meio de mandato, realizadas na última terça-feira (3), recaiu sobre a composição do Congresso americano, o pleito foi também um laboratório de democracia direta. Em mais de 30 estados, cerca de 150 propostas foram submetidas ao crivo popular, abordando temas sensíveis que vão desde o acesso ao aborto e direitos de atletas transgêneros até a inédita taxação de grandes fortunas.
Restrições a atletas transgênero
A pauta de costumes ganhou força com medidas que buscam impedir a participação de mulheres transgênero em competições esportivas femininas. Estados como Arizona, Colorado, Nebraska e Washington avançaram com propostas de restrição. No Arizona, a legislação foi além, estendendo a proibição para escolas privadas e estabelecendo regras rígidas para o uso de vestiários baseadas no registro de nascimento. Em Washington, a exigência de verificação de “sexo biológico” por profissionais de saúde também obteve apoio majoritário, gerando críticas sobre a natureza invasiva dos procedimentos.
Aborto e direitos civis
O cenário do aborto nos EUA permanece fragmentado após a decisão da Suprema Corte de 2022. No Idaho, eleitores rejeitaram a criação de garantias para o procedimento, mantendo a proibição quase total vigente. Já no Missouri, a população barrou uma tentativa legislativa de restabelecer vetos ao aborto, consolidando um revés para o Partido Republicano local.
Disputas fiscais e regras eleitorais
A economia também foi tema de debate com a “Proposta 40” na Califórnia, que visava taxar em 5% o patrimônio global de cerca de 250 bilionários. A medida enfrentou resistência política interna, inclusive do governador Gavin Newsom, sob o argumento de que a fuga de empresas de tecnologia poderia ser um efeito colateral.
O debate sobre a integridade do voto também esteve presente. Enquanto Califórnia e Colorado rejeitaram a exigência de documentos adicionais para o voto por correio, o estado de Nevada aprovou a medida. Em paralelo, a organização dos distritos eleitorais foi palco de uma batalha estratégica entre democratas e republicanos em Maryland e Missouri, com o objetivo de redesenhar o mapa político para os próximos anos.
Inovações e curiosidades políticas
Outras pautas curiosas marcaram o pleito, como a tentativa em Montana de limitar o financiamento corporativo em campanhas, desafiando a histórica decisão da Suprema Corte no caso Citizens United. No Alasca, o sistema de “voto por preferência” foi mantido pela população, apesar das polêmicas envolvendo candidaturas estratégicas. Já no Alabama, uma nova lei tornará obrigatória a execução do hino nacional semanalmente nas escolas públicas.
O resultado dessas votações reflete um país profundamente dividido, onde pautas que não foram plenamente solucionadas no Legislativo acabam sendo decididas diretamente nas urnas, moldando o cotidiano dos cidadãos americanos para além das escolhas partidárias tradicionais.