Soltar peixes em represas ou mananciais para combater surtos de dengue e plantas aquáticas tornou-se uma prática comum. No entanto, uma revisão científica recente indica que essa estratégia geralmente falha e ainda gera graves prejuízos ambientais.
O estudo examinou o emprego de peixes estrangeiros como agentes de controle biológico, ou seja, animais levados a novos habitats para diminuir populações de mosquitos, moluscos, vegetação aquática e outros animais.
Conforme os especialistas, essas solturas provocam declínio da biodiversidade, estrago de habitats, instabilidade na cadeia alimentar e propagação de enfermidades, além de danos sociais e econômicos, muitas vezes sem sequer eliminar a espécie-alvo.
Investigação global sobre espécies exóticas
A pesquisa consiste em uma revisão narrativa da literatura, detalha a ecóloga Ana Clara Sampaio Franco, doutora pela UFRJ e pesquisadora associada ao Institut d’Ecologia Aquàtica, da Universitat de Girona, na Espanha. Por essa razão, não existe uma quantidade fixa de artigos analisados, reunindo ocorrências de múltiplos países e espécies.
Dados da base global FishBase apontam França e Estados Unidos como líderes em registros de peixes introduzidos para essa finalidade. Contudo, a própria cientista destaca que esse montante é altamente subestimado, visto que o Brasil possui poucas notificações cadastradas na plataforma.
A distância entre a prática e a ciência
Para a especialista, o aspecto mais impressionante é o abismo entre as medidas de manejo e as comprovações científicas, especialmente no combate às larvas de vetores de doenças.
As espécies mais empregadas para esse fim são as gambúsias, raras no território brasileiro, e os guppys, popularmente conhecidos como barrigudinhos. A pesquisadora pontua que eles atuam como predadores generalistas, alimentando-se do recurso mais abundante disponível, o que nem sempre engloba as larvas de mosquitos.
Outros fatores comprometem a eficácia da medida: As fêmeas do Aedes aegypti identificam a presença de peixes na água e evitam a desova nesses locais. Os ovos do vetor eclodem em pequenos recipientes com água parada, onde muitas vezes um peixe não caberia. Nas localidades que receberam os animais, não há relação direta com a queda nas arboviroses. O objetivo principal não é apenas reduzir a população do inseto, mas sim barrar a transmissão da enfermidade.
O país já abriga barrigudinhos nativos, como os do gênero Phalloceros, cujos testes laboratoriais demonstram eficiência contra as larvas.
Impacto sobre a fauna nativa
A pesquisadora resume que inserir uma espécie ineficaz gera competição direta com a fauna que realmente poderia cumprir o papel ecológico. Além disso, o aumento descontrolado de mosquitos possui múltiplos fatores, sendo a ausência de predadores apenas um detalhe menor.
Consequências indesejadas do sucesso biológico
Mesmo quando a espécie exótica cumpre o objetivo de eliminar o alvo, novos problemas ecológicos surgem. As carpas-negras e carpas-capim mostram alto desempenho no controle de plantas e moluscos, mas geram um alto preço para a comunidade nativa.
Ambas possuem hábitos alimentares amplos, destruindo vegetação e consumindo moluscos autóctones. Por conta disso, a ecóloga reforça que praticamente toda introdução de peixe não nativo gera impactos negativos.
O cenário brasileiro
No Brasil, o guppy foi disseminado em várias áreas para combater larvas, mas falha na missão e disputa espaço com os barrigudinhos locais.
Outro exemplo ocorreu na barragem do Bezerro, no Piauí, marcada por ataques de piranhas-vermelhas a banhistas. O governo local tentou introduzir tambaqui e tilápia-do-nilo como presas, sem sucesso, e posteriormente soltou tucunarés e traíras para conter as piranhas, embora relatos locais indiquem a persistência dos ataques.
O tucunaré, amplamente utilizado na pesca esportiva, apresenta riscos elevados quando solto em ambientes naturais. Pelo fato de devorar qualquer peixe que caiba em sua boca, a literatura científica já considera consenso que o predador pode dizimar populações locais e empobrecer a diversidade biológica.