Uma rua tranquila na Vila Castelo Branco, localizada em Campinas (SP), abriga o Centro de Educação Infantil (CEI) Recanto das Crianças. Este endereço escolar registrou um feito inédito na metrópole paulista durante o pleito: foi a única seção entre os 268 locais de votação da cidade a terminar com um empate exato nas urnas, com 210 votos para cada presidenciável entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
Convivência pacífica na diversidade política
Apesar da polarização evidente nas estatísticas, moradores da região destacam que o clima permaneceu harmônico tanto no dia da eleição quanto no período de divulgação dos resultados. Na contagem geral do município, o candidato do Partido Liberal manteve a ponta, mas o petista conseguiu ampliar sua base de eleitores na segunda etapa do pleito.
Moradora antiga do bairro, Andressa Augusto da Silva, de 30 anos, percebia o racha político entre vizinhos desde o início da campanha eleitoral e durante o acompanhamento da apuração.
“Na hora que o Flávio virou, a galera tava soltando fogos. Mas, na hora que o Lula ganhou também, a galera saiu pra rua”, relatou.
Apesar dos ânimos exaltados em momentos específicos, ela avalia que o clima geral permaneceu amigável.
“A galera estava conseguindo conversar, bater uma ideia, que é a democracia. Foi bem tranquilo aqui no bairro”, pontuou.
Futuro, democracia e prioridades na urna
Para a moradora, questões fundamentais como saúde pública, ensino e segurança foram determinantes na hora de escolher o candidato. Mãe de uma criança de 3 anos, ela relata ter pensado no bem-estar da filha e no coletivo.
“Foi pela democracia, pela liberdade, pelos negros, LGBT, pelos índios, pelas religiões”, disse.
Resignação e respeito entre os eleitores mais velhos
Em contrapartida, os aposentados Rosa Emília dos Santos, de 74 anos, e Jovino dos Santos, de 78 anos, cumpriram o dever cívico logo nas primeiras horas da manhã, mesmo estando dispensados da obrigatoriedade do voto por causa da idade avançada.
“Gastei cinco minutos, debaixo de chuva mesmo. Depois fui cuidar do almoço, que aí os filhos vêm, né?”, explicou Rosa.
O resultado final, contudo, surpreendeu o casal de idosos, que esperava um desfecho diferente com base nas pesquisas.
“Não, não era [esperado]. As pesquisas, nada apontava esse resultado, né? Enfim, mas é a democracia”, afirmou Jovino.
Ainda que lamentassem a derrota do candidato de preferência, eles ressaltam que a divisão na vizinhança do único colégio eleitoral empatado da cidade não gerou brigas ou desentendimentos.
“Estamos em paz. Estamos descontentes. Cada um na sua, e vamos tocando o barco. Ver o que vai dar no final disso tudo né?”, completou Jovino.
Estrutura eleitoral da metrópole
Dados oficiais do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) apontam que a cidade possui 267 pontos fixos de votação, além da inclusão inédita de uma seção instalada no Centro de Detenção Provisória (CDP) local para esta votação.
O órgão esclarece que as instalações voltadas a presos provisórios possuem regras específicas e “não são considerados nas listagens de locais de votação ordinários nem no total de eleitores do cadastro”.
Conforme a instituição, “os eleitores são vinculados a esses tipos de local por meio de transferência temporária de eleitor (TTE), que é válida apenas para a eleição na qual foi requerida, de maneira que os dados relacionados a esses locais constam apenas em consultas relacionadas a alguma eleição em específico”.