Investigações conduzidas pela Polícia Federal sobre a queda do voo 2283 da Voepass, acidente que resultou na morte de 62 pessoas em agosto de 2024 em Vinhedo (SP), trouxeram à tona depoimentos inéditos. Relatos de ex-funcionários e tripulantes apontam que práticas como o uso de componentes de aeronaves abandonadas e falhas ignoradas faziam parte da rotina da companhia aérea antes da tragédia envolvendo o ATR-72 de matrícula PS-VPB.
Processo judicial e réus O levantamento do sigilo processual pela Justiça permitiu o acesso aos documentos detalhados da investigação. No total, 12 pessoas tornaram-se rés e vão responder pelos crimes de atentado contra a segurança do transporte aéreo e sinistro em transporte aéreo. Os acusados respondem tanto pela queda quanto pelo risco imposto a passageiros e tripulantes nos três voos realizados imediatamente antes do acidente com a mesma aeronave. Entre os denunciados estão integrantes da alta administração, diretores, gerentes e funcionários da empresa, enquanto outras quatro pessoas firmaram acordos de não persecução penal.
Ordens de pintura e histórico de incidentes Entre os citados no processo está Juliano Pacheco Flores, então gerente do centro de controle de manutenção. Segundo o depoimento de um mecânico, ele teria recebido ordens diretas para pintar uma peça da parte traseira do PS-VPB após um “tail strike” — incidente em que a cauda toca a pista durante pouso ou decolagem —, ocorrido em março de 2024 em Salvador (BA).
“(…) o Juliano pediu para mim, para eu pintar o T-Skid de vermelho, com a lata de cor (…) aí, ele ficou com raiva (…) pintar T-Skid, isso não existe, falei não (…) isso eu não vou fazer”, declarou.
Embora o relatório do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) nãoponha esse incidente como causa direta do acidente, apontando problemas no sistema de degelo, os relatos fortalecem a tese do Ministério Público Federal (MPF) de que o desastre foi o desfecho previsível de omissões contínuas.
Canibalização de peças e componentes enferrujados O mesmo profissional de manutenção relatou que a diretoria ordenava a retirada de itens de aeronaves consideradas sucata para uso imediato em outros voos, sem a devida revisão em bancada. Ele mencionou a remoção de uma bomba hidráulica de um avião abandonado no mato.
“Fui tirar uma bomba hidráulica de um avião que tava lá no meio do mato. O avião era sucata, doutor. A bomba hidráulica tava toda enferrujada. Ela tava com fluido hidráulico lá dentro e isso é proibido pelo manual”, narra.
Apesar de o manual da aeronave permitir a chamada “canibalização” de peças, o funcionário destacou que o procedimento exigia recondicionamento técnico.
“Eu tô pensando que eles iam tirar e mandar pra bancada, fazer uma reforma, revisar (…) Ele (rapaz do estoque) falou assim: ‘não cara, essa peça vai lá pra Fortaleza pra botar no avião lá’. Eu falei assim: ‘o que é isso, cara?’ (…) a peça foi tirada do avião no meio do mato, o avião vai virar sucata, tá pra corte, o avião não voa mais, vocês vão mandar pra lá?'”
Problemas de instrumentos e migração de panes A apuração também recolheu o depoimento de um copiloto que relatou deficiências estruturais no PS-VPB, como o marcador central de combustível inoperante e a falta de varetas manuais de medição, conhecidas como “dipsticks”, o que obrigava a tripulação a realizar cálculos complexos. Adicionalmente, uma ex-comissária detalhou uma prática recorrente na companhia: a transferência de componentes defeituosos entre diferentes aviões da frota para burlar prazos regulamentares de troca, fazendo com que o problema simplesmente migrasse de uma aeronave para outra. “A pane migrou”, resumiu.
Posicionamento das defesas e da empresa A defesa de Juliano Flores Pacheco negou as acusações de forma categórica e ressaltou que os depoimentos foram colhidos na fase de inquérito, sem contraditório ou crivo judicial, confiando na demonstração de inocência no decorrer da ação penal. Por sua vez, a Voepass declarou em nota que continuará colaborando com o Poder Judiciário, enfatizando que manteve a segurança operacional como princípio fundamental ao longo de sua história de três décadas e reiterando solidariedade aos familiares das vítimas.