Uma aranha-armadeira foi encontrada abraçada a uma bolsa branca de ovos dentro do oco de um tronco de árvore na Serra da Mantiqueira, em Gonçalves, Minas Gerais. O achado surpreendeu visitantes que costumavam vistoriar o local há anos sem nunca encontrar nada diferente.
Identificação da espécie e hábitos diurnos
A análise das imagens confirmou que se tratava de uma fêmea de Phoneutria nigriventer, nome científico da aranha-armadeira. O objeto guardado pelo aracnídeo era uma ooteca, estrutura tecida com fios de seda para agrupar e proteger a prole.
Segundo Alexandre Michelotto, biólogo do laboratório de aracnologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o oco que ela se encontrava tinha uma função naquele momento: “O oco poderia ser um refúgio diurno: esse gênero é achado de dia em bananais, bromélias, cupinzeiros, sob troncos caídos e pedras. Elas costumam se guardar de dia e caçar à noite por perto”
A espécie costuma repousar durante o dia e buscar alimento no período noturno. O registro foi feito por volta das 14 horas, momento em que o animal estava inativo.
Tempo de permanência e comportamento materno
Especialistas explicam que o abrigo serve como ninho durante todo o período de gestação e proteção dos ovos.
Rafael Prezzi Indicatti, pesquisador do Departamento de Biodiversidade da Universidade Estadual Paulista (Unesp), detalha a dinâmica do período reprodutivo: “Durante o tempo que ela estiver com a bolsa de ovos, será o ninho dela. Elas podem utilizar o mesmo local por semanas ou meses, dependendo do tempo de vida. Os filhotes e as jovens podem ficar mais tempo, mas também está relacionado a presença de insetos, sua principal fonte de alimentação. Quando ela está com a bolsa de ovos, normalmente prefere não se alimentar para proteger a prole”
A eclosão pode gerar entre 30 e 200 filhotes, dependendo da fartura de alimentos na região. O cuidado com os ovos é comum entre várias espécies de aranhas, embora o comportamento defensivo se intensifique nessa fase.
Sobre essa reação protetiva, Lina Maria Almeida Silva, professora do Departamento de Ecologia e Zoologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), pontua: “O cuidado com as ootecas não é raro e diversas espécies fazem isso. Pelo que ja vi em outras espécies, elas tendem a ficar mais defensivas e evitar confronto, mas isso é especulação de observação”
Cuidados com o veneno e importância ecológica
O nome “armadeira” vem da postura de defesa adotada quando o animal se sente ameaçado: a aranha se apoia nas patas traseiras, ergue as dianteiras e exibe os ferrões (quelíceras) e as listras características. O animal pode saltar até 40 centímetros para atacar.
O veneno da espécie possui ação neurotóxica e pode causar dor intensa, sudorese e alterações na pressão arterial, exigindo atendimento médico em caso de picada. Por isso, especialistas recomendam manter distância e nunca manusear o animal.
Apesar dos riscos para humanos, a aranha-armadeira cumpre um papel ecológico fundamental no controle de populações de insetos, ajudando a manter o equilíbrio dos ecossistemas onde habita.