Mariana Lúcia da Silva Ramos Mota foi apontada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro como responsável pela arrecadação de dinheiro de assessores do então deputado estadual. Em março deste ano, ela foi nomeada diretora na Câmara Municipal de Resende, presidida por um vereador do PP.
Por NR 24 Horas | Política
Muito antes de Fabrício Queiroz se tornar um dos principais personagens do escândalo das rachadinhas no gabinete de Flávio Bolsonaro, outra pessoa já aparecia no caminho do dinheiro: Mariana Lúcia da Silva Ramos Mota.
A ex-chefe de gabinete do atual senador e candidato à Presidência da República foi apontada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) como responsável por recolher valores repassados por assessores parlamentares quando Flávio Bolsonaro ainda exercia mandato na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).
O nome de Mariana voltou a chamar atenção por um fato documentado: em março de 2026, ela foi nomeada para um cargo comissionado na Câmara Municipal de Resende, no interior fluminense.
A nomeação consta do Ato nº 024/2026, publicado no Boletim Oficial do município em 6 de março. Mariana passou a ocupar o cargo de diretora de Diversidade e Inclusão Institucional, símbolo CLE-1, com efeitos a partir de 2 de março.
O ato foi assinado por Alessandro Soares Ritton, conhecido como Sandro Ritton, vereador do Progressistas (PP) e presidente da Câmara Municipal de Resende.
A documentação confirma a nomeação, embora ainda seja necessária uma consulta à folha funcional mais recente para verificar sua permanência no cargo.
Os R$ 39,4 mil identificados na investigação
Em dezembro de 2019, reportagens do Estadão e de O Globo revelaram que o Ministério Público havia identificado movimentações financeiras atribuídas a Mariana durante o período em que ela trabalhava para Flávio Bolsonaro.
Segundo os investigadores, Mariana recebeu R$ 39,4 mil do ex-assessor Jorge Luis de Souza, por meio de 15 transferências bancárias realizadas entre janeiro de 2007 e março de 2008.
Os repasses corresponderiam a aproximadamente 45% da remuneração do servidor.
O MP-RJ sustentou que Mariana exercia a função de arrecadadora dos valores devolvidos por funcionários do gabinete antes de Fabrício Queiroz assumir essa atividade.
A investigação também apontou que ela havia realizado saques que totalizaram aproximadamente R$ 134 mil de sua própria remuneração durante o período analisado.
Essas movimentações foram interpretadas pelos promotores como indícios da prática conhecida como rachadinha, caracterizada pela devolução de parte dos salários de servidores públicos.
As conclusões dos investigadores constituíam acusações, e não uma condenação judicial.
Relação próxima com a família Bolsonaro
A ligação de Mariana com os Bolsonaro não se limitava ao vínculo profissional com Flávio.
Reportagem da jornalista Bela Megale, publicada em O Globo em dezembro de 2019, revelou que Mariana mantinha uma relação de amizade próxima com Ana Cristina Siqueira Valle, ex-mulher de Jair Bolsonaro.
Ana Cristina também ocupou uma chefia de gabinete, mas no mandato de Carlos Bolsonaro, na Câmara Municipal do Rio de Janeiro.
Outro vínculo identificado pelos investigadores envolvia Catarina Ramos Mota, filha de Mariana.
Catarina foi nomeada assessora parlamentar no gabinete de Flávio Bolsonaro e teve participação societária na Siscomp Sistema de Telefonia Computadorizada, empresa ligada a Ana Cristina Valle.
As relações familiares e profissionais ajudam a compreender a proximidade entre Mariana e pessoas que integravam o círculo político dos Bolsonaro. Por si só, entretanto, esses vínculos não demonstram a prática de crimes.
Da Assembleia Legislativa à Câmara de Resende
A trajetória de Mariana também passou pela administração pública de Resende.
Documentos municipais registram sua atuação em funções administrativas ao longo dos anos. Em 2014, por exemplo, ela foi exonerada do cargo de diretora administrativa da Fundação Hospitalar de Resende, que ocupava desde uma nomeação realizada em 2011.
Agora, em 2026, seu nome reaparece em uma nomeação para a estrutura administrativa do Legislativo municipal.
O responsável pelo ato, Sandro Ritton, foi eleito vereador pelo PP em 2024 e disputou uma vaga na Assembleia Legislativa fluminense pelo mesmo partido nas eleições deste ano.
Não há, até o momento, documentação que comprove que Mariana seja filiada ao PP ou que sua nomeação tenha ocorrido por indicação de Flávio Bolsonaro.
O que existe é uma ligação profissional anterior, amplamente documentada, com o gabinete do senador e uma nova nomeação para cargo público feita por um dirigente do Progressistas.
O que aconteceu com a investigação das rachadinhas?
O caso das rachadinhas teve uma reviravolta judicial.
Em 2021, decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF) anularam elementos probatórios utilizados na investigação contra Flávio Bolsonaro.
No STF, a Segunda Turma considerou irregular a obtenção de quatro relatórios de inteligência financeira produzidos pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Com a perda de provas consideradas fundamentais, a denúncia acabou rejeitada em 2022.
Isso significa que o caso não resultou em condenação criminal de Flávio Bolsonaro, mas também não houve julgamento de mérito que concluísse pela inexistência dos fatos investigados.
Em setembro de 2026, o Grupo Prerrogativas e o deputado Rui Falcão solicitaram ao MP-RJ a reabertura das investigações, apresentando informações relacionadas a um cofre bancário e a operações imobiliárias do senador.
O pedido não representa, por si só, a reabertura da investigação nem uma nova acusação contra Mariana.
Perguntas que permanecem
A nomeação de Mariana Lúcia da Silva Ramos Mota em 2026 coloca novamente sob escrutínio público uma personagem que teve seu nome associado a um dos episódios mais controversos da trajetória política de Flávio Bolsonaro.
Há questões que merecem esclarecimento:
- Quais critérios foram utilizados para sua nomeação na Câmara Municipal de Resende?
- Quais atividades ela exerce ou exerceu no cargo de diretora de Diversidade e Inclusão Institucional?
- Qual foi sua remuneração no período?
- Quem apresentou ou recomendou seu nome para a função?
- Mariana mantém atualmente algum vínculo político ou profissional com integrantes da família Bolsonaro?
A nomeação para um cargo público não constitui irregularidade por si só. Entretanto, o histórico de uma pessoa que exerceu função de confiança em um gabinete investigado pelo Ministério Público é informação de legítimo interesse público.
Antes de Fabrício Queiroz, o Ministério Público já havia identificado Mariana como uma das personagens da suposta arrecadação de salários no gabinete de Flávio Bolsonaro. Quase duas décadas depois, seu nome voltou a aparecer em um ato oficial de nomeação para cargo de confiança.
Cabe agora esclarecer os vínculos atuais, as circunstâncias da escolha e as atribuições efetivamente desempenhadas.
O NR 24 Horas mantém espaço aberto para manifestações de Mariana Lúcia da Silva Ramos Mota, Sandro Ritton e Flávio Bolsonaro.
Fontes e documentos
- Boletim Oficial de Resende, nº 016/2026, página 45 — Ato de nomeação de Mariana
- Estadão/UOL — Investigação sobre Mariana e as rachadinhas, dezembro de 2019
- O Globo — Relação de Mariana com Ana Cristina Valle
- STF — Decisão sobre as provas do caso das rachadinhas
- Folha de S.Paulo — Pedido de reabertura do caso em setembro de 2026
